2026 Anônimo
"Andou Enoque com Deus e já não era, porque Deus o tomou para si"
Em virtude do número baixíssimo de pessoas que lerão esse texto, me sinto mais à vontade para ser bastante pessoal e transparente, talvez até compartilhar “confidências”
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O ano é 2014, meus pais haviam se divorciado no ano anterior, e uma série de outros acontecimentos tristes, infelizmente, eclodiram todos ao mesmo tempo (como numa orquestra de satanás para destruir a família e cada um de nós individualmente). Depois de um ano morando em Florianópolis com meu pai, me mudei para Guarapuava onde estava minha mãe.
Ali vivi uma série de experiências bastante inéditas na minha vida, ainda hoje tento retomar muito do que recebi ali. Já já me farei entender.
Meu celular não era smart. Era um dos mais simples mesmo naquele ano, e muito raramente tinha crédito pra mandar um SMS pra amigas. A minha casa tinha um computador, daqueles quadradões bem grandes, mas eu não tinha apreço nem hábito de usá-lo, a não ser para um ou outro trabalho escolar, e aos sábados quando ouvia alguma pregação -quase sempre Paul Washer-, mexia no facebook por uma hora, algo do tipo.
Apesar de nascida em lar cristão, houve uma experiência pontual e muito marcante de um arrependimento mais profundo, em Guarapuava mesmo, e a partir desse momento a minha rotina mudou bastante.
Ia pra escola pela manhã, toda minha obrigação ao voltar pra casa era almoçar e lavar a louça do almoço - o que eu fazia o mais rapidamente possível - e então me trancava no meu quarto. Geralmente das 14h às 18h (sim, tinha uma pontualidade e uma vivência de rotina e tempo bastante puritana) eu dedicava duas horas à leitura das Escrituras nas minhas bíblias de estudos, e duas horas orando. Meu grande exemplo naquela altura era Jonathan Edwards e suas disciplinas espirituais. Se não me falha a memória ele orava quatro horas diariamente, sendo um homem casado, pastor, pai. Era o que eu faria um dia. Mas o ponto é que, mesmo hoje, sabendo que as pessoas podem ler mal a Bíblia, acho que essas práticas não têm contra indicação alguma, pelo contrário. Acredito que devemos nos guiar por uma confiança ingênua no pastoreio do Senhor, de que somos ignorantes como ovelhas, e que Ele nos conduzirá a pastos verdejantes.
Nesses primeiros momentos eu era cheia de um radicalismo juvenil, acreditava que os verdadeiros cristãos “oram pelo menos 2 horas ininterruptas ao dia”, e tem essas e aquelas atitudes etc. Se parecem com isso, e são assim e assado. O Senhor me suportou nesse momento de arrogância pela minha recente experiência pessoal. Me confirmou através de experiências, pelo Seu amor paciente.
Nesse tempo eu carregava o desejo de não me casar - embora isso seja bastante desencorajado em meios evangélicos - foi uma ideia sem muito modelo. Mas esse desejo tinha essa raíz arrogante, presunçosa. Eu ainda não entendia muito bem do que se trata o amor e o serviço cristão.
João Batista era pra mim o exemplo máximo de cristão, (e é), mas com um olhar muito superficial. Eu havia recebido algumas “palavras proféticas” sobre isso, sobre ser “uma voz que clama do deserto” etc. durante o tempo em que estudava justamente sobre sua vida ali nas tardes no meu quarto, mas eu ainda precisava de uma revelação de humildade - hoje eu sei.
Eu tinha uma melhor amiga, que também cultivava suas disciplinas espirituais e tínhamos muita comunhão de alma. Sempre orávamos juntas, dormindo uma na casa da outra, e, não sei se você também percebe isso, mas orar muito com uma pessoa é um tipo de intimidade única, você percebe que existem petições sempre presentes que expressam os desejos mais insistentes de alguém. Os meus sempre envolviam alguma coisa relacionada à “dons e poder”, o da minha amiga era “amor ao próximo”. Mas meus olhos também se abriram pra isso só depois.
Entre os apóstolos eu gostava muito de Pedro. Ela de João. Ela falava muito de Maria. Eu de João Batista. Ela pedia amor. Eu os dons e o poder de Deus. Mas isso tudo ainda era obscuro.
Certo dia quando eu ainda estudava a vida de São João Batista algo diferente aconteceu. Aquele lugar no meu quarto já tinha uma atmosfera especial, mas naquele dia eu entrei e sabia que estava diferente.
Eu reli o texto que já havia lido pelo menos 100 vezes nas últimas semanas: Cristo enaltecendo São João Batista perante à multidão quando ele estava preso. Especialmente a parte “dos nascidos de mulher, não há maior que São João Batista”.
Mas, naquele momento eu recebi algo de Deus, as palavras seguintes ganharam o verdadeiro destaque, e eu compreendi todos esses aspectos - das minhas preces insistentes, da minha arrogância, dos verdadeiros desejos que eu nutria - num único segundo.
“Mas o menor no Reino dos céus é maior João Batista”. E claro, não há como conter as lágrimas. Eu entendi que não queria me casar não por vocação, mas por me acreditar especial demais pra servir um marido, para dar a vida por filhos, principalmente pelo aspecto de “anonimato” que envolvem esses papéis. Entendi, com uma simples frase, que julgava demais as outras pessoas, como os fariseus, que me achava superior por ter certas disciplinas espirituais. Gastava demais minha saliva pedindo coisas que eram tão menores perto do que me faltava: a humildade, o amor.
A partir daí o Senhor me levou pra um outro rumo, onde o Evangelho de São João e o próprio São João se tornaram o centro das minhas atenções nos próximos meses. A lição de fundo era: nem sempre as pessoas mais santas são aquelas que ocupam os lugares de liderança, os lugares de destaque. Na verdade eu comecei a reparar e receber exemplos de que, não raro, elas se encontram em anonimato. Então meu coração e meus desejos se transformaram. Quanto maior comunhão e intimidade com Deus, maior santidade. Nesse sentido, São João é claramente o amigo mais íntimo do Senhor, no entanto Pedro teve um papel de primazia na Igreja Primitiva.
Me lembro do Paul Washer também comentar em uma pregação de um amigo dele, que era um fazendeiro no Texas, realmente isolado, que ele visitava regularmente e que era um homem muito superior a todos os pregadores e líderes que ele conhecia, superior a ele mesmo, nas suas palavras. Daqueles homens que constrangem as pessoas em choro mesmo em silêncio. No entanto esse homem era fazendeiro, marido, pai e nada mais. Um anonimo. Essa pregação foi escolhida aleatoriamente no youtube durante esse momento, feliz “coincidência” (eu não acredito em coincidências!).
Existem algumas coisas que Cristo disse sobre o anonimato: parece que aquelas obras que nós propositalmente escondemos dos homens são recompensadas exclusivamente por Deus. É um incentivo claro ao anonimato.
Retomo todo esse percurso, de tantos anos atrás (que são vívidos como se tivessem acontecido ontem pra mim), porque eu quero retomar pelo menos um pouco do que existia no meu coração naquele tempo.
As revelações que Deus nos dá em espírito também se perdem se não forem cuidadas. É como um fogo que, para arder continuamente, precisa ser constantemente alimentado. Essas verdades parecem mais um lugar que você habita, mas sua permanência ali depende da sua pureza, do estado das suas vestes. Você pode ser convidado a entrar, e a retirar-se também, e é com tristeza que sei que, no momento, “habito” muito longe. Diferentes níveis de experimentação dessas verdades são estados aos quais nos elevamos e decaímos. O que estou fazendo é tentando percorrer esse caminho novamente, mas confirmando que só quem pode nos abrir essas portas é Deus mesmo, segundo Seus próprios critérios.
Mas, se posso inspirar alguém, saiba que o anonimato é um terreno fértil. Um lugar onde estão os maiores homens e mulheres que já passaram por aqui (essa é uma fé pessoal). Portanto não caiamos na ladainha de ter que ser alguém na vida, onde o significado disso não é “ser”, absolutamente, mas ter e parecer, e ostentar, e dar prova pública de.
Parecia que eu tinha tanto a calar naquela época, -e tinha. Mas hoje, quanto mais!
É desse esvaziamento de que preciso em 2026. E uma boa dose de anonimato, com significado, se é que posso dizer assim.
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Perfeito. Não me recordo quem disse, e cito de memória, que a rua é o nosso claustro. Assim, creio que esta entrega anônima dos claustros para nós leigos deve ser direcionada para o mundo, sem buscar os holofotes, mas nos entregarmos à caridade.